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Financiamento no jornalismo digital: o que publishers precisam saber

Lara Ximenes 8 min de leitura 31 de março de 2022
financiamento jornalismo

Publisher, você tem dúvidas sobre financiamento e sustentabilidade no jornalismo digital?

Aqui no blog, temos diversos conteúdos sobre o assunto, que vão desde as assinaturas digitais aos passes diários e a monetização de produtos digitais, como apps e newsletters. Mas essas não são as únicas formas de financiar conteúdos.

Entre editais, fundos de investimento e bolsas, são inúmeras as formas de financiamento para o jornalismo nativo digital, seja a iniciativa independente ou não. Além disso, cada projeto tem suas particularidades.

Diante disso, o tema “Financiamento e sustentabilidade dos veículos nativos digitais”, abordado em uma das últimas mesas do Festival 3i, chamou a nossa atenção. Afinal, essa é uma questão que dialoga com a realidade de diversos publishers que nos acompanham.

Para ajudar organizações de imprensa na busca por mais sustentabilidade na receita, fizemos mais uma cobertura deste rico debate. 

Boa leitura!

Introduzindo o tema

Participaram da discussão Nishant Lalwani, vice-presidente do Luminate Group, e Mijal Iastrebner, diretora geral do SembraMedia. Ambas instituições trabalham com o fomento de iniciativas jornalísticas globais, de forma que desenvolvam modelos de negócios mais sustentáveis. Para mediar a conversa, a mesa contou com a jornalista Simone Cunha, do laboratório de jornalismo Énois Conteúdo.

A mesa partiu da seguinte reflexão: “ter paixão pelo jornalismo e contatos entre financiadores é importante, mas quais outros caminhos de gestão, compartilhamento de conhecimento e atuação em rede são necessários e possíveis para construir estratégias e modelos de negócios que se sustentem no Brasil?”

Reconhecendo que a sustentabilidade financeira das organizações é um desafio para o jornalismo de qualidade, o que precisa ser colocado em prática para mudar essa realidade?

Não há resposta pronta – nem um só modelo de financiamento

“Todo mundo espera que as organizações de imprensa tenham uma solução para um problema que não foi criado pelas instituições de imprensa. As pessoas esperam que as soluções venham dos jornalistas, e não de outros setores ou do governo”, afirmou Lalwani.

O problema ao qual se refere o vice-presidente da Luminate se iniciou quando grandes plataformas de tecnologia começaram a tirar, consideravelmente, a receita publicitária desses veículos (Google e Facebook, por exemplo). 

Inclusive, neste artigo de 2021, falamos sobre a importância de publishers focarem nos assinantes digitais para tentar driblar esse problema – mas essa é apenas uma das possíveis soluções para o financiamento e a sustentabilidade de iniciativas jornalísticas.

Afinal, como bem pontuou Lalwani, é preciso acontecer uma mudança estrutural na economia do mercado de notícias. “Quase todos os debates que participo, questionam se as organizações de imprensa não podem inovar seus modelos de negócio. É uma boa pergunta. Inovação no modelo de negócios é um caminho para ter mais sustentabilidade, assim como diversificar as redações com jornalistas de grupos sub representados. É preciso se comunicar com públicos que o jornalismo não se conecta atualmente”, lembra o vice-presidente da Luminate. 

Novas formações para novos desafios de financiamento

Complementando o debate, Mijal Iastrebner alerta para a necessidade de formar novas gerações de jornalistas para enfrentar os desafios do digital. “Acho que estamos mais avançados (no debate) do que estávamos há alguns anos, mas ainda há muito trabalho para ser feito, e o trabalho não é só ajudar as organizações, mas também pensar na formação das pessoas que ainda estão entrando no mercado jornalístico”, acredita a diretora geral, que também é jornalista, professora e empreendedora.

Em resposta, Simone Cunha destacou que as organizações nativas digitais são muito diferentes entre si, tanto que muitas redações já são 100% remotas e multidisciplinares.“(O digital) é um campo que tem estratégias de negócio diferentes e prestam serviços de informação diferentes”, disse. 

A mediadora também indagou se diversificar a equipe e as expertises internas contribui para a organização financeira se sustentar financeiramente – e Iastrebner concordou. “Estou totalmente de acordo. Uma das descobertas que fizemos em estudos (da SembraMedia) é que quanto maior a diversidade de talentos, maiores são as chances da organização aumentar a renda anual”, afirmou a jornalista. 

Diversidade de talentos nas equipes têm papel crucial

Segundo Mijal, nas equipes em que há pelo menos uma pessoa na área comercial ou de financiamento e desenvolvimento institucional, a probabilidade é seis vezes maior de gerar renda. 

Ela também acredita que diversificar talentos também significa dar espaço para todos os grupos sociais e étnicos, conforme Lawani pontuou anteriormente, com o objetivo de ecoar novas vozes e atingir novos públicos. “Ter jornalistas próximos da realidade de suas comunidades gera muito valor para o veículo, pois aumenta a confiabilidade e a relevância na agenda pública”, acrescenta. 

Para Iastrebner, os negócios digitais mudam muito rápido, e desde que o mercado de notícias migrou para o digital, ele está mais volátil, com mudanças cada vez mais constantes. “É preciso estabelecer culturas ágeis para seguir ou dar continuidade às tendências, bem como para tomar decisões rapidamente”, assegura a representante do SembraMedia. Aqui no blog, já falamos sobre a metodologia ágil e equipes multidisciplinares em redações – você pode conferir a seguir:

Afinal, o poder público também pode contribuir? 

Por considerarem o acesso à informação um bem de interesse público, ambos os especialistas acreditam que a inovação também pode acontecer na esfera pública. Isso, claro, sem comprometer ou interferir na liberdade editorial e na liberdade de imprensa. Lalwani citou a cobertura da pandemia e do desenvolvimento das vacinas como exemplo recente em que o acesso à notícia foi um serviço de utilidade pública.

Exemplos práticos de inovação nas legislações já acontecem ao redor do mundo, como na Austrália, que aprovou uma lei exigindo que big techs como o Facebook e Google negociem com os publishers a publicação de suas notícias nos feeds. O Reino Unido já possui uma regulamentação parecida, que oferece isenção fiscal e fundos de apoio ao jornalismo local.

Ainda assim, o assunto é polêmico e Lalwani reconhece que tais alternativas não estão isentas de críticas. “Nenhuma dessas tentativas é perfeita, mas são formas de testar e pensar quais as possíveis inovações públicas podem acontecer”, afirmou.

“A crise no jornalismo corrói a democracia e vice versa”

Com essa frase, Cunha começou suas considerações finais, relembrando a importância coletiva de estruturar e fortalecer o jornalismo. “É muito importante falar sobre dinheiro nas organizações, entre os nossos pares, para construirmos e aprendermos juntos sobre gestão ”, pontuou a Diretora Operacional do Énois Conteúdo.

Iastrebner acrescentou: “É preciso ter ciência de tudo que a gente consegue quando quebrarmos o tabu do management”, disse, se referindo ao conjunto de conhecimentos referentes à organização e à gestão de uma empresa. 

Para Lalwani, uma das principais lições do debate foi a necessidade de olhar além dos modelos tradicionais de jornalismo – e para fazer isso, é preciso de criatividade e colaboração.

“Juntos, podemos pensar em reduzir custos, aumentar a segurança e sempre apresentar argumentos convincentes de porquê o jornalismo é importante. Esse não é um problema que vai ser resolvido do dia para a noite”, acredita o vice-presidente do Luminate Group. 

A discussão também destacou o fato de que não há uma única solução para ser aplicada a todos os veículos e organizações. “É preciso várias fontes de receita e soluções diferentes para chegarmos em uma nova era do jornalismol”, pontuou Lalwani.

Se você chegou até aqui e gostou do resumo, é possível conferir esse e outros painéis no canal do YouTube do Festival 3i.

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